A LUA E O QUEIJO : Viagem
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O HEROICO RESGATE DA FAMÍLIA ILHADA NO RANCHO DE FURNAS EM SANTO HILÁRIO




Uma das viagens para o rancho em Furnas que ficou marcada nas lembranças foi com o Vitinho e foi para resgatar nossa família.
O Vitinho sentado em uma de suas pescarias em Furnas


Meus pais e minha irmã Fabiula foram para o Rancho do Sr. Aírton em Santo Hilário passar uns dias. Eles foram de ônibus até Pimenta e lá pegaram um ônibus que estava fazendo a linha Pimenta / Guapé. Foram para ficar uma semana. Saíram na segunda feira e voltariam na sexta feira, porque eram nestes dois dias que tinha o ônibus que fazia a linha Guapé / Pimenta. 


Mas durante a semana começou a chover. Chovia o dia inteiro e a noite também. A chuva não dava sinais de que ia parar. Com isso, a estrada de terra que ligava Pimenta até Guapé passando por Santo Hilário, ficou intransitável devido a quantidade de lama que se formara. O ônibus que fazia esta linha suspendeu as viagens por não ser possível trafegar. Era preciso parar de chover e abrir sol durante o dois dias para que fosse possível usar a estrada novamente. Mas isso não aconteceu. A chuva continuou até o final de semana.


No Rancho do Sr. Aírton não tinha como se comunicar com ninguém. Assim, meu pai, minha mãe e minha irmã ficaram isolados e sem poder voltar e eles precisavam vir embora. Chegou sexta feira a noite e meus pais não apareceram em casa. Se eles não viessem sexta, só poderiam vir segunda feira, quando tinha o ônibus, mas minha mãe tinha encomendas de salgados e ela nunca deixou de fazer uma encomenda, ainda mais sem avisar que não faria.


Meu irmão mais velho, o Vitinho, sabia que chovendo sem parar não era possível sair do Rancho. Então ele me chamou para que a gente fosse tentar resgatar nossos pais e irmã. Que eu me lembro, o Vitinho sempre teve carro. Lembro que ele tinha um Chevrolet Caravan, mas não sei se fomos neste carro para furnas. O fato eh que eu e ele fomos para furnas para buscar nossos pais e nossa irmã.

Chegamos em Pimenta sem problemas, a rodovia era toda asfaltada. Em Pimenta o Vitinho foi pegar  a estrada de terra para Santo Hilário. Na entrada da estrada de terra havia vários carros parados, pessoas ali olhando a estrada e dois carros já atolados na lama pouco a frente. Nós paramos o carro e fomos conversar com as pessoas que estavam ali. Meu irmão falou que precisava ir até o rancho em Santo Hilário, mas as pessoas ali disseram que só um maluco arriscaria ir. Não estava passando nem ônibus e nem caminhão. Mas o Vitinho falou que ia arriscar e iria trazer nossos pais e irmã.


As pessoas falando para ele não ir, que ele não iria conseguir, que era melhor esperar mais um dia, mas o Vitinho disse que ia conseguir ir e voltar com nossa família. E foi. Entrou com o carro na estrada de terra que era lama pura. Já no início o carro deslizava de um lado a outro, mas o Vitinho não parou e continuou acelerando. Algumas vezes o carro deslizou e chegou a encostar no barranco, mas não parava. Algumas partes desta estrada tem uns abismos bem profundos, outras partes tem paredões de pedras. O Vitinho foi passando por todos eles com o carros as vezes andando quase de lado.


Depois de uns dez minutos dirigindo nós vimos dois homens indo a pé pela estrada. Estavam cobertos de lama. A lama da calça ia até os joelhos. Quando viu estes dois homens o Vitinho falou comigo que ia dar carona para os dois. Porque se o carro ficasse atolado teria mais ajuda para empurrar. O Vitinho passou por eles e parou um pouco a frente, onde tinha matos na lateral da estrada. Os dois homens vieram até a gente e não acreditaram que o Vitinho estava conseguindo trafegar na estrada. 


Eles disseram que estava indo para Santo Hilário. O Vitinho ofereceu carona e disse que ia até a Fazenda do Sr. Cotinho.  A entrada da fazenda do Sr. Cotinho eh a mesma do Rancho e fica a uns dez quilômetros antes de Santo Hilário. Este dois homens embarcaram no carro e seguimos viagem. Estes dois homens ficaram falando que ninguém nunca tinha conseguido passar naquela estrada do jeito que ela estava. O Vitinho disse que ia até o rancho, só pegar meus pais e irmã e a gente ia voltar. Eles não acreditaram muito que ele conseguiria. Mas chegamos.
Eu e meu pai na cozinha do rancho de Furnas em Santo Hilário
A casa do rancho que foi reconstruída recentemente
O Vitinho parou o carro na porteira da fazenda, os dois homens seguiram a pé para Santo Hilário, eu e o Vitinho descemos a pé para o Rancho, fomos correndo na verdade. O carro não podia descer até lá, porque ele não subiria de volta devido estar chovendo. Fomos descendo a estrada que leva ao rancho correndo e quando chegamos na porteira do rancho, nosso pai olhou assustado vendo a gente ali. O Vitinho disse que era para arrumar as coisas rapidamente para a gente ir embora porque estava ficando cada vez pior a estrada.


Meu pai não acreditava que o Vitinho tivesse ido até lá e conseguido chegar para buscá-los. Minha mãe disse que a Fabíula tinha dito que o Vitinho viria salvar a gente e ele vinha comigo. Minha mãe disse que ela falava isso o tempo todo. E foi como aconteceu. Depois das malas arrumadas fomos para a estrada. Entramos no carro e o Vitinho dirigiu fazendo o mesmo zig zag na lama. Voltamos para Pimenta. Quando chegamos, as pessoas que ainda estava ali com carros atolados ou aguardando a estrada melhorar para passarem, não acreditavam que o Vitinho tinha conseguido ir e voltar. Diziam que era impossível. Nem ônibus passava.


Desde que me lembro, o Vitinho sempre teve carro. O primeiro acho que foi quando trabalhava no BMG (Banco de Minas Gerais) e foi logo depois que serviu o exército. E desde então sempre teve carros. Vários modelos e marcas. O mais legal pra mim foi a Caravan. Minha mãe sempre dizia que ele corria muito com o carro e, as vezes que andei com ele, corria mesmo. Ele sempre dizia que era um ótimo motorista, que sabia o que estava fazendo. 

Que ele eh um ótimo motorista todos sabem, mas dirigir naquela estrada de lama, ida e volta, com chuva, o carro deslizando para os lados, batendo em barrancos, para resgatar nossos pais e irmã, foi um feito arriscado, mas que nunca pode ser esquecido. Porque só os heróis conseguem.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

EU, MEU IRMÃO MARCELO E MINHA BICICLETA PEUGEOT FRANCESA NA LINHA DO TREM




Quando as pessoas começam a trabalhar a primeira coisa que compram eh um carro. Também, eh a maior paixão do ser humano desde que foi inventado.


Quando consegui meu primeiro emprego de carteira assinada, comprei uma bicicleta em 36 parcelas. Isso mesmo, uma bicicleta Peugeot francesa. Eu nem pensava em ter carro nesta época, afinal, tinha apenas doze anos e bicicleta era a paixão de qualquer garoto de minha idade. 
Minha bicicleta Peugeot era diferente das que eu estava acostumado a ver. Como a Caloi ou Monark. Ela era mais bonita, mais alta e os freios eram contra-pedal.


Tive dificuldades em andar em minha bicicleta Peugeot no início devido a altura que era. Para parar tinha que ser encostando em um muro. Andar em uma bicicleta mais alta não foi difícil acostumar, o maior problema era que minha Peugeot tinha os freios contra-pedal. Eu não estava acostumado com este tipo de freio, então, nem sempre conseguia parar onde devia. As vezes, quando lembrava que para frear a minha Peugeot era só tocar o pedal para trás, já era tarde demais.


Com isso tive inúmeras quedas com minha Peugeot. Quedas ao parar, quedas por não conseguir parar, quedas descendo os morros e não lembrar de tocar os pedais para trás e várias outras. Com isso tiver vários acidentes com minha Peugeot. Quebrei os braços várias vezes, a clavícula, pés, dedos e a perna duas vezes. Mas claro que não fui todos de uma vez. Pensando bem, teve uma vez que não consegui frear minha Peugeot em um cruzamento e acabei atropelando um carro e quebrei vários ossos de uma vez só. Mas isso eh uma outra história.


Eu poderia dizer que tudo isso que aconteceu comigo tinha tornado minha bicicleta Peugeot inesquecível. Isso, apesar das dores, ossos e dentes quebrados eh até legal de lembrar. Mas o que tornou minha Peugeot inesquecível foi uma viagem que decidi fazer com minha Peugeot de minha cidade até Marilândia, pela linha do trem. A linha do trem passa na porta de nossa casa, era só seguir a linha. Sem morros, sem trânsito, claro que se o trem viesse, e aconteceu dele vir mesmo, era só ficar o mais longe da linha possível. Mas tinha muito espaço na beira da linha para a gente ficar enquanto o trem passava.
Programei a viagem para sair sábado de manhã. Eu não trabalhava sábado. Chamei meu irmão Marcelo para ir comigo. Dois colegas de trabalho, sabendo desta viagem de bicicleta pela linha do trem, disse que viriam comigo. Na sexta feira a noite eu fiz quatro lanches, dois para mim e dois para meu irmão Marcelo. Imaginei que uma viagem desta iria consumir muita energia e a gente precisava se alimentar na viagem. Sábado de manhã saímos nós quatro pela linha do trem em direção a Marilândia.


A ida foi um espetáculo. Paisagens deslumbrantes a perder de vista, sempre encontramos vez ou outra uma casinha próxima a linha do trem que lembram paisagens de cinema, pontes de ferro bem altas que para atravessar dava até medo, as vezes tinha muito mato na beira da linha e era preciso empurrar a bicicleta. Encontramos com um boi pastando na beira da linha e ficamos com medo de passar por ele, mas ele estava com mais medo da gente. Então foi tranquilo. Muita conversa e risadas pelo caminho. Cansamos um pouco, mas enfim chegamos na estação de Marilândia onde sentamos para descansar. 


Marilândia eh um distrito de Itapecerica muito antigo e que tem uma igreja muita antiga e famosa. Não fomos até lá para ver. Eu admirava a paisagem e quando meus colegas falaram em voltar, eu disse que ia lanchar primeiro. Mas não tinha mais lanche. Meu irmão comeu os lanches dele e meus colegas comeram os meus. Eles não tinha trago lanches e achou que aqueles dois eram para eles. Assim eles estavam bem para fazer a viagem de volta e eu, com fome e sem forças.


Na volta, pedalando pela linha do trem, fui ficando sem forças, pois não tinha comido nada. Assim meus colegas foram se distanciando de mim, me deixando para trás. Meu irmão Marcelo ficou comigo. Não muito longe de Divinópolis eu não tinha mais forças para pedalar e então parei e deitei nas pedras da linha do trem. Não conseguia me levantar. Tinha perdido totalmente minhas forças. Com algumas moedas que eu tinha no bolso, pedi meu irmão para ir até um bar que tinha não muito distante dali, próximo a linha, em um lugar chamado 48. Pedi meu irmão para comprar um guaraná.
Meu irmão foi e trouxe o guaraná para mim. Eu sabia que açúcar dava energia rapidamente. Não durava muito, mas seria suficiente para eu conseguir chegar em casa. Assim, pouco tempo depois que tomei o guaraná, partimos novamente. Quando eu e meu irmão Marcelo chegamos em Divinópolis, em nossa casa, já eram mais de três horas da tarde. Meus colegas tinham chegado pouco depois das onze horas. Meus pais e os vizinhos já estavam preocupados com nossa demora. 


Pouco tempo depois desta aventura, dei minha bicicleta Peugeot para meu irmão Marcelo. E nunca mais comprei outra. Não que eu não pudesse ou quisesse comprar, mas descobri que andar de bicicleta era só uma fase da vida que vem, passa, vai embora e não volta mais. Ou talvez volte, quando em uma certa idade o médicos recomendam andar de bicicleta.


Por enquanto fica esta aventura inesquecível que vivi com minha bicicleta Peugeot, meu irmão Marcelo, pelas linhas do trem.


Conheça o distrito de Marilândia / Itapecerica / nas Minas Gerais 




































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