A LUA E O QUEIJO : Ferrovia
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

SOCANDO SERRAGEM DA FERROVIA NO FOGÃO A LENHA




Buscar serragem nas oficinas da ferrovia para nosso fogão a lenha, era até fácil e as vezes até divertido. 
Mas tinha um tal de Socar o Fogão, que era demorado, cansativo e ninguém gostava de fazer. As vezes sobrava pra mim socar o fogão. E socar o fogão tinha que ser todos os dias. Mas você deve estar se perguntando: o que eh socar o fogão? 


Socar o fogão a lenha era nada mais que encher ele de serragem em vez de lenha. Mas não era só encher de serragem, tinha que socar a serragem para ela ficar bem firme como se fosse um bloco de madeira. Primeiramente a gente colocava a chapa de colocar as panelas, depois um cano comprido de uns dez centímetros de diâmetro, bem no centro onde se coloca a lenha. Este cano vinha da porta de entrada da lenha até o final do local onde fica a lenha. Depois a gente tampava a porta para a serragem não sair para fora.


Depois a gente pegava três canos menores e colocam eles em cima daquele cano que passa em baixo, nos furos da chapa onde se coloca as panelas. Ai era só encher de serragem. Depois de cheio era hora de socar esta serragem. Dai o nome Socar o fogão. A gente tinha que socar bem forte e depois colocar mais serragem, sem deixar os canos saírem do lugar. Quando o fogão estava cheio de serragem socada, era hora de ver se a gente fez direito.


Primeiramente a gente tirava os três canos menores que foram colocados nos buracos da chapa do fogão. Depois a gente tirava o cano que ficava em baixo onde se coloca a lenha. Se a gente tiver socado o fogão direito, os buracos vão ficar interligados. Os três buracos de cima com o de baixo. Se não tiver socado o fogão direito, a serragem vai cair e tampar os buracos. Quando isso acontecia a gente tinha que tirar toda a serragem e fazer tudo outra vez. 
Dando tudo certo, minha mãe colocava fogo na serragem por aquele buraco deixado pelo cano de baixo. O fogo vai queimando a serragem lentamente e saí pelos três buracos onde estão as panelas. Um fogão bem socado mantinha o fogo acesso o dia inteiro praticamente. 
A maioria das vezes que eu soquei o fogão, a serragem caía e eu tinha que fazer tudo novamente. Isto com minha mãe reclamando pela demora e pelo fato de eu não fazer nada direito, segundo ela. 


Socar o fogão não durou muito tempo, até que meu pai resolveu usar lenha em vez de serragem. Mas ai a gente tinha que ir buscar lenha. E buscar lenha era longe e no carrinho de madeira que fazemos compras. Era longe, pesado puxar o carrinho cheio de lenha, cansativo demais, pois a gente saía sete horas da manhã e só voltava por volta das duas da tarde e com muita fome.


Socar o fogão era ruim até que começamos a buscar lenha. Então descobri que o mais fácil era sempre o que deixamos de fazer para fazer outro no lugar. Eu me perguntava porque a gente não podia continuar com a serragem, se era tão mais fácil. Mas nunca perguntei para meu pai ou minha mãe o real motivo. Que só fui saber muito tempo depois.





segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

AS COMPRAS NO ARMAZÉM DA FERROVIA




O armazém da Ferrovia que tem aqui na Vila só vende para seus funcionários. O pagamento das compras eh descontado de seus salários, quando eles recebem.


Isto porque os funcionários, as vezes, ficavam seis meses sem receberem salários. Mas o armazém continuava vendendo as mercadorias todos os meses. A medida que os funcionários vão recebendo os salários atrasados, eles vão descontando o que devem.


Meu pai fez um carrinho de madeira, com roda de madeira, nesta roda meu pai prendia uma lona de pneu para proteger a madeira,  e um varal para puxar. Ele tinha um metro por dois aproximadamente, fora o varal que deveria ter uns três metros. Com este carrinho a gente ia fazer as compras do mês no armazém da ferrovia. E era muito legal ir fazer estas compras. Mesmo o armazém estando bem próximo de nossa casa.


Meu pai comprava um saco de sessenta quilos de arroz, um saco de sessenta quilos de açúcar, trinta quilos de feijão, carne seca, gordura de coco e várias outras coisas. Tudo que estava na lista que minha mãe fazia. Nem sempre tinha tudo que ela precisava. Na época do natal, era neste armazém que minha mãe comprava os presentes e brinquedos para nós. Também ali que a gente comprava o material escolar no início do ano. Também neste armazém que minha mãe comprava as roupas que todos nós usávamos diariamente.
Na nossa casa, meu pai fez um balcão de madeira. Tipo aqueles do armazém da ferrovia. Este balcão tinha três repartições. Duas grandes e uma pequena. Nas repartições grandes ele colocava os sessenta quilos de arroz em uma e sessenta quilos de açúcar em outra. Na menor ele colocava os trinta quilos de feijão. Cabiam certinho. Este arroz, açúcar e feijão duravam um mês certinho. Terminavam sempre no dia de fazer compras. As vezes o feijão até acabava antes, mas comprar novamente só na data permitida. 


Muitas vezes, a noite, a gente ficava brincando com este carrinho que meu pai fez para fazer compras. Com dois irmãos meu dentro do carrinho, dois empurrando e eu ou outro no varal, a gente corria o máximo que podia e quem estava no varal pulava e o varal levantava, carregando a pessoa ali pendurada. O carrinho ia arrastando a traseira até parar. E a gente fazia tudo outra vez. E ia revezando quem ficaria no varal do carrinho.


O legal de fazer compras no armazém da Ferrovia era a gente tentar puxar o carrinho com todo aquele peso. A gente até conseguia um pouco, mas depois não conseguia tirar o carrinho do lugar. Meu pai então dava um tapa na cabeça da gente e dizia: Força, não eh homem não? Ai ele ajudava a empurrar e a gente chegava até em casa com as compras.


O armazém da ferrovia marcou a infância de todos da vila. Seja pelas compras de mantimentos, seja pelas roupas, seja pelos materiais escolares, seja pelos presentes de natal, que era sempre os mesmos, todos os anos.



CONHEÇA O MUNDO OLHANDO DA JANELA DO TREM



domingo, 16 de fevereiro de 2020

O FOGÃO A LENHA E A FERROVIA




Desde que nasci, meus irmãos também, claro, a gente está envolvido com a ferrovia e os trens.
Todas as casas de nossa Vila Operária tem um fogão a lenha. A nossa também. Mas aqui nós não usamos lenha no fogão. O nosso fogão a lenha funciona com serragem. Serragem eh o pó que sai da madeira quando ela eh serrada. E meu pai sempre diz que serragem e lenha no fogão, não faz diferença, funciona do mesmo jeito.


Moramos na Vila Operária que fica no terreno da ferrovia onde estão as oficinas e todos os departamentos da ferrovia, inclusive a marcenaria. Esta marcenaria fabrica móveis e também a madeira que eh colocada em muitos vagões. Eles trabalham o dia inteiro nesta marcenaria e, todos os dias da semana. Com este trabalho a marcenaria da ferrovia produz muita serragem, que para eles eh só um resíduo descartável, para nós era combustível.


Toda sexta feira a ferrovia permitia que qualquer família da Vila pegasse serragem para o fogão, ou para colocar no piso do galinheiro. A maioria das casas de nossa vila tinha galinheiro. Aqui em casa também. A gente colocava serragem todos os sábados e retirava na sexta feira seguinte. Isto todas as semanas e o ano inteiro. Tudo que a gente tinha que fazer era buscar serragem na marcenaria da ferrovia. E isso eu e dois irmãos meus fazíamos todas as sextas feiras.
Cada um de nós pegava um saco de linhagem. Saco de linhagem era um saco grande feito de linha amarronzada. Geralmente colocavam nele milho ou feijão. Ele cabia sessenta quilos de milho ou feijão. Meu pai conseguia estes sacos de linhagem na cooperativa da Ferrovia. A cooperativa vendia milho e feijão a granel, isto eh, a quantidade que você quisesse. Assim quando acabava todo o milho ou feijão que estava no saco, a cooperativa guardava estes sacos de linhagem para dar aos funcionários que buscavam serragem na marcenaria.


A gente só podia buscar a serragem depois que terminava o expediente na ferrovia, que era as quatro e meia da tarde. Quando a gente chegava lá, meu pai já estava esperando para encher os sacos com a serragem. Assim vinha meu pai trazendo dois sacos com serragem, porque não ficavam pesados, e só ele conseguia levar dois de uma vez, enquanto eu e meus irmãos vinha com um saco cada um. Eu geralmente vinha arrastando o saco com a serragem, porque ele era quase do meu tamanho e então eu não conseguia colocar ele nos ombros como meu pai e irmãos faziam. Mas era bem perto de casa, então não era tão difícil assim.


Na nossa casa tinha uma coberta ao lado do fogão a lenha que era onde a gente deixava os sacos com a serragem para serem usadas no nosso fogão a lenha. No dia seguinte a gente tirava a serragem do galinheiro, colocava no nosso carrinho de madeira, que meu pai tinha feito, e jogava a serragem velha em um lugar na Vila Operária chamado de Buracão. Era onde todos da vila jogavam serragem usada nos galinheiros e outros lixos. Da beirada deste Buracão a gente via o Rio Itapecerica passando lá em baixo. Deveria ter uns vinte metros de altura. As cinzas do nosso fogão também eram jogas neste Buracão. 
Sábado era dia de trocar a serragem do galinheiro, mas todos os dias a gente tinha que Socar o Fogão. E claro, ninguém gostava de Socar o Fogão. Mas eu conto o que eh isso na próxima viagem.